
Mesmo após R$ 750 mil repassados por emenda parlamentar federal, estrutura continua precária e servidores são obrigados a trabalhar em meio a cheiro de decomposição
Um cenário desumano e inaceitável tomou conta do Instituto Médico Legal (IML) de Porto Velho nesta semana. As câmaras frigoríficas responsáveis pela conservação dos corpos pararam de funcionar, e o local passou a exalar um forte odor de decomposição, perceptível já do lado de fora da unidade. Funcionários denunciam condições insalubres de trabalho e a falta de resposta das autoridades.
Apesar do repasse de R$ 750 mil à unidade — valor oriundo de emenda parlamentar federal —, a verba não foi usada para substituição das câmaras frias, nem para a aquisição de novos equipamentos. Segundo servidores ouvidos sob anonimato, o montante foi destinado a reformas superficiais, enquanto a estrutura essencial permanece abandonada.
“É impossível trabalhar nessas condições. O cheiro está insuportável, não tem ventilação, e estamos lidando com corpos em decomposição. Isso aqui virou um descaso com a saúde e com a dignidade humana”, relatou um funcionário do IML, sob sigilo.
Os problemas começaram há alguns dias, quando os equipamentos apresentaram falhas técnicas. Desde então, os corpos passaram a permanecer sem refrigeração adequada, agravando o odor e o risco biológico no local.
População também denuncia o mau cheiro.
A situação não atinge apenas os profissionais do IML. Familiares que aguardam atendimento para liberação de corpos e exames relatam desconforto e indignação.
“É um desrespeito. Não conseguimos ficar nem na recepção. O cheiro é muito forte, parece que estamos dentro de uma vala. Isso aqui é um serviço público, com vidas envolvidas, não pode continuar assim”, reclamou Adriana Silva*, que aguardava liberação de um corpo nesta semana.
“Não dá nem para respirar. As pessoas que trabalham aqui merecem respeito. E nós, que perdemos alguém, também”, disse José Aparecido*, outro visitante.
(*Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.)
Servidores expostos e silêncio das autoridades
De acordo com relatos, os servidores continuam cumprindo expediente em meio ao odor, sem máscaras adequadas ou qualquer medida emergencial. O sindicato da categoria e representantes da sociedade civil já alertaram as autoridades, cobrando providências da Secretaria de Segurança Pública e do governo estadual.
“Se nada for feito, vamos judicializar. Essa situação é um atentado à saúde pública e à dignidade dos trabalhadores”, declarou um representante classista.
A reportagem apurou que o secretário de Segurança Pública já foi acionado, e um ofício será enviado formalmente ainda nesta semana. Caso não haja resposta imediata, uma ação judicial deve ser movida para garantir a intervenção emergencial.
E os recursos públicos?
A maior crítica recai sobre o uso dos recursos destinados à unidade. Técnicos apontam que o valor recebido seria suficiente para reformar a estrutura física, adquirir novas câmaras frigoríficas, equipamentos forenses modernos e ainda investir em melhorias nas condições de trabalho dos servidores.
“Estamos falando de um órgão que lida com a dor humana, com famílias fragilizadas. É inadmissível que o básico não esteja funcionando. Onde foi parar esse dinheiro?”, questiona um servidor.
Enquanto isso, a estrutura segue comprometida, os corpos continuam sendo armazenados sem refrigeração adequada e o mau cheiro denuncia o que há muito vem sendo ignorado: o colapso silencioso do sistema pericial em Rondônia.
Da Redação